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Ainda a Coleção e os seus Artistas • Transmutações e memórias com Eduardo Nery

Eduardo Nery (PT) Transmutação da imagem II, 1981 Fotografia sobre papel 82 x 60 cm Prémio Fotografia na III Bienal Internacional de Arte de Cerveira, realizada de 24 de Julho a 31 de agosto de 1982.

 

Em 1982, Eduardo Nery (1938-2013) venceu o Prémio Fotografia na III Bienal Internacional de Arte de Cerveira, realizada de 24 de Julho a 31 de agosto, com as obras Transmutações da Imagem I e II (83×61 cm), ambas de produção no ano anterior e que correspondem a uma fase do seu trabalho que Raquel Henriques da Silva[1] designa como Paisagismo abstrato de temática cósmica em que, após uma clara exploração da pintura, mas também do vitral e da tapeçaria, mergulha na fotografia e na colagem, alargando o campo de possibilidades de adulteração do nosso campo de perceção de imagens e contextos. As duas obras, pertencentes por isso à coleção da Fundação Bienal de Arte de Cerveira, integram a exposição “Ainda a coleção e os seus artistas”, patente até 8 de fevereiro de 2020 no Fórum Cultural de Cerveira.

Natural da Figueira da Foz, Eduardo Nery inscreve-se em 1956 no curso de pintura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (atual FBAUL), transitando em 1959 para arquitetura e acabando por não concluir nenhum dos dois. Não obstante, expunha já, coletivamente, desde 1957 e, em 1960 inicia um estágio com Jean Lurçat, em Saint-Céré, França, na área da tapeçaria contemporânea. Talvez tenha sido esta diversidade de aprendizagens iniciais determinante para o afirmar como um artista multifacetado e cujo trabalho de prolifera por várias disciplinas, mantendo um carácter experimental e que se favorece pelo extenso mapa de construções e desconstruções imagéticas que nos desafiam a entendimentos conceptuais não lineares.

Eduardo Nery começará, assim, com uma pintura de tendência gestual, evoluindo em meados da década de 1960 para a designada Op Art com trabalhos inovadores em que se evidencia a sua paleta vibrante, em que descobre e brinca com jogos cinéticos e se inicia nas alterações de perceção a partir da pintura como definidora de mundos paralelos ao real e ao visível. Eduardo Nery vai multiplicar estes universos cósmicos, trabalhando as ideias de labirinto e vertigem e alargando o campo processual à tapeçaria, ao azulejo e até mesmo ao vitral, como já referido. Em 1971 integrou o conjunto de artistas convidados para efetuar as pinturas para o café A Brasileira, no Chiado (Lisboa), para substituir as telas modernistas de 1925. Nesta participação sentimos a sua identidade plástica e pictórica. Daqui fará um caminho de incursão no dadaísmo e na anti pintura, somando ao seu trabalho temáticas mordazes, misteriosas, humorísticas e paradoxais, nunca excluindo o rigor na perspetiva e o princípio base de pensar a composição a partir da tal transmutação da imagem. Chega daqui à fotografia, à colagem e à série de obras que estão no centro desta análise, onde sentimos a instabilidade das formas suspensas, por um lado e, por outro, o misticismo da composição e da cor.

Interessa, ainda, referir a dimensão de dinamizador cultural e pedagogo do artista que, em 1973 foi um dos sócios fundadores da escola Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação, Lisboa.

A coerência e a riqueza do percurso artístico e da obra legada por Eduardo Nery comprova-se pelo enorme número de exposições individuais e coletivas que realizou, pela presença das mesmas em coleções públicas e privadas. Entre os locais que realizaram exposições individuais suas podemos destacar: Museu Nacional de Arte Antiga, Museu Nacional de Soares dos Reis, Fundação Calouste Gulbenkian, Culturgest e Museu Nacional do Azulejo, a título de exemplo.

 

« texto de Helena Mendes Pereira

[1] SILVA, Raquel Henriques da – “Eduardo Nery”. In: SILVA, Raquel Henriques da – 50 Anos de Arte Portuguesa. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2007, página 140.

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