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Ainda a Coleção e os seus artistas | Um torso, uma mulher por Amaral da Cunha

Amaral da Cunha, 1980 “S/ título” Escultura em Mármore 78 x 24 x 22 cm

 

Em 1980, Amaral da Cunha venceu o Prémio Revelação Escultura na II Bienal Internacional de Arte de Cerveira, realizada entre 2 e 31 de agosto. A obra, em mármore (78x24x22 cm), integra-se num corpo de trabalhos que se vieram a revelar como marca fundamental da sua produção artística em que explora, em termos de forma, o torso feminino, evidenciando a sua preferência pelo trabalho em pedra, itinerando entre o granito e o mármore. São várias as coleções públicas e privadas, em Portugal e além fronteiras, que integram obras suas. Uma delas, a da Fundação Calouste Gulbenkian, reflete a bolsa de estudo que teve em 1982 para explorar a aplicação da fundição do bronze pelo processo da areia. O bronze é, assim, outro dos materiais privilegiados pelo artista.
Amaral da Cunha (n.1954) nasceu em Vila Nova de Gaia e formou-se na Escola Superior de Belas Artes do Porto (atual FBAUP) onde é, desde então, docente, tendo sempre dividido a sua atividade entre as tarefas da Academia e a atividade como escultor. Tem participado em diversos simpósios e outros eventos relacionados com a escultura em pedra, tanto em Portugal como no estrangeiro, sendo igualmente dezenas as exposições em que foi possível contactar com as suas mulheres vertidas escultura.
Amaral da Cunha afirma-se pela coerência de um percurso em que perseguiu a essência e a beleza das formas femininas, esculpindo-as com a paixão de quem toca a pessoa amada. É por isso que quando confrontados com as suas obras, sentimos as dores da transformação da pedra como se do nosso corpo de tratasse. Como muitos outros artistas, Amaral da Cunha acolhe influências dos contextos em que se insere e das viagens da sua biografia. Conhecer o Japão em 1987 foi um destes exercícios estruturantes, tendo conseguido captar os sinais do imaginário oriental, em peças que se assemelham a peças votivas. Também neste campo, a mulher é a evocação da glória, o princípio e o fim, revestindo de poesia e palavras o anonimato dos corpos que teimam em surgir a partir de diferentes pontos de vista anatómicos.
A obra de 1980, que integra a coleção da Fundação Bienal de Arte de Cerveira, expõe-se atualmente em “Ainda a coleção e os seus artistas”, patente no Fórum Cultural de Cerveira até 8 de fevereiro de 2020. É sintomática, por fim, da importância que o domínio de um certo saber-fazer ainda clássico manteve na Academia por décadas e das releituras que sofreu no contexto do pós 25 de abril de 1974.

 

Texto de Helena Mendes Pereira

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