Projeto “40 anos, 40 artistas” | José Rodrigues: uma biografia que se escreve (também) pelas ruas de Cerveira

 

José Rodrigues (1936-2016) pertence a uma geração de artistas que, nascidos na sua grande maioria na década de 1930, irão marcar a introdução das vanguardas em Portugal nos anos 60, com afirmação nos 70, ditando escola e rutura, sobretudo, após a Revolução dos Cravos, com notável presença no espaço público e como recorrentes nas principais exposições de artes plásticas. De 1970, o espólio da Fundação Bienal de Arte de Cerveira (FBAC) integra, precisamente, uma obra desta fase de trabalho, em chapa de ferro policromada (54x65x128 cm), numa simbiose de elementos geométricos com orgânicos estilizados.

As referências biográficas, de um artista com unânime reconhecimento como José Rodrigues (1936-2016), são genericamente difundidas. Pelas ruas de Vila Nova de Cerveira, incluindo-se as obras de sua autoria presentes no espaço público e as que integram a coleção do Museu Bienal de Cerveira, poderia escrever-se parte desta biografia e esboçarem-se algumas das principais linhas orientadoras da sua produção plástica, que vai da escultura ao desenho, mas também abrange áreas como a medalhística ou a cenografia.

José Rodrigues nasceu em Luanda (Angola) e viveu parte da sua infância em Alfândega da Fé, uma pequena aldeia transmontana que deixou por volta dos 14 anos quando conseguiu convencer os pais a autorizarem os seus estudos no Porto. É por este motivo que, em ano de XX Bienal Internacional de Arte de Cerveira a programação se estende a Alfândega da Fé, com exposição comissariada por Ágata Rodrigues e Ana Duque. A sua atividade artística está, também, irremediavelmente, ligada à cidade invicta (onde, ainda em vida, criou uma Fundação com o seu nome) e a Vila Nova de Cerveira, tendo estado no grupo criador da Bienal de Cerveira (1978) e onde, atualmente, se mantém o Convento San Payo associado à sua memória e ação de dinamizador cultural. É, aliás, fundamentalmente neste território do Entre-Douto-e-Minho que podemos contactar com grande parte da sua obra, nomeadamente com a escultura em espaço público. Na primeira Bienal, em 1978, o espaço de exposição já lhe dedica área exclusiva, o que pode ser testemunhado no espólio documental (fotografias e vídeo) disponível na exposição “V Encontros Internacionais de Arte: Recontar a (pré)história da Bienal” e, na coleção da FBAC, há marca de José Rodrigues num exercício de cadavre exquis em que participaram outros artistas. Em 1980, José Rodrigues venceu o Prémio escultura na II BIAC, realizada de 2 a 31 de agosto, com a obra Escultura II (100x100x15cm), em mármore e bronze.

Numa entrevista de 2010, publicada no número 9 da extinta revista Bombart, quando questionado sobre se a sua atividade artística era influenciada por estes lugares aos quais se sentia ligado ou se, por outro lado, era a vontade de criar que ditava a escolha dos lugares. Respondeu: “Há uma tendência de querer ser global e eu sou, profundamente, marcado pelos sítios por onde passo. No Porto sou marcado pelas pedras e pelo nevoeiro; pelo que é bom e pelo que é mau; pelos bons e pelos maus cheiros. O mesmo acontece com Cerveira, com Trás-os-Montes, com Angola ou com o Oriente. Cerveira aparece na minha vida depois de uma viagem que fiz ao Oriente, à China e a Kathmandu. Cheguei ao monte e vi umas pedras, afinal Kathmandu estava ali tão perto, na Peneda. A natureza começou a fazer um grande apelo e Cerveira teve esse condão: chamar a atenção para as coisas mais simples como um tronco, uma pedra, uma folha. Isso foi muito importante. Somos bichos da circunstância. Em África, por exemplo, fui marcado pela magia, pela feitiçaria. E, em Trás-os-Montes, nomeadamente Alfândega da Fé, uma terra muito pequenina onde nasceram os meus pais, marcou-me o Cristianismo, o sentido religioso da vida, o sentido do sagrado. Essa mistura de continentes faz parte da minha cabeça, do meu sangue, e, às vezes, não sei se sou preto, se sou branco, se sou azul.” Destas viagens surge, sem dúvida, um conceito inovador de interpretação da natureza que combina com aspetos inerentes à escultura moderna, tais como o equilíbrio e a estabilidade, numa oposição à instabilidade e ao movimento, patentes, por exemplo no Cubo (Porto) ou no Esforço (Vila Nova de Cerveira). Sobre o Esforço (1982), capa da III BIAC, interessa referir que o objeto reflete uma tentativa de, conceptualmente, o artista ultrapassar a própria lei da gravidade, criando-nos a ilusão de que a água suporta a pedra. A pedra, por sua vez, estabelece contacto visual com o Monte do Espírito Santo, parecendo completá-lo, numa simbiose perfeita entre a obra de arte e a natureza. Contudo, ainda na abordagem à amplitude temática da sua obra, se olharmos para as Anjas, meninas-mulheres com asas, encontramos uma interpretação dos mitos e da religião e um fascínio, transversal à sua obra, pelo corpo da mulher.

José Rodrigues está no grupo de artistas e intelectuais que, em 1963 (ano em que também concluiu a sua formação na Escola de Belas-Artes do Porto) se funda a Cooperativa Árvore, com pressupostos de promover um novo modelo de ensino capaz de romper com o academismo vigente e, ao mesmo tempo, num contexto de liberdade e partilha. Será desta instituição um dos seus mais emblemáticos presidentes e, também a partir daqui, marcará a sua vida de encontros refletidos, inclusivamente, na coleção de obras de arte que constituiu. O coletivo será a forma de estar do Mestre em muitas das dimensões da sua história, desde Os Quatro Vintes às suas colaborações com o teatro, como cenógrafo e como aprendiz de tudo. Disse, nessa mesma entrevista, que havia aprendido tudo como a cenografia, “até a namorar. O teatro é uma lição: aprende-se a limpar o chão, a fazer guarda-roupa, a luz, o som, o espaço. Os meus cenários nunca eram cenários pintados, eu fazia objetos. (…) O teatro tem essa característica fundamental do trabalho em equipa. (…) O teatro é o mundo.” Em 2011, estavam em exposição no Convento San Payo, as maquetes dos cenários que fez para teatro. Está ali uma revolução, uma quebra, uma interferência do cenógrafo no trabalho do encenador e do ator. Depois há uma relação nova que se cria com os com os públicos, como, por exemplo, no caso de Perdidos Numa Noite Suja, de Plínio Marques (1966), levado a cena pela Seiva Trupe em 1978, em que à maneira ready made coloca um enorme caixote do lixo no centro da cena, desafiando os espetadores a assistirem, de cima para baixo, aos humanos que se matam uns aos outros. Desta exposição, a coleção da FBAC herdou a maquete do cenário concebido por José Rodrigues para A Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca (1898-1936), estreado a 29 de janeiro de 1972 pelo TEP (Teatro Experimental do Porto). Cenograr um texto de Lorca em pleno Estado Novo é um dos exemplos da sua eterna forma de resistir e desobedecer.

Sobre os Os Quatro Vintes, que incluem Ângelo de Sousa (1938-2011), Jorge Pinheiro (n.1931) e Armando Alves (n.1935), dizer que se tratou de grupo criado com a coincidência dos vinte valores no final de curso na Escola de Belas-Artes do Porto e que como consequência da “camaradagem ali nascida, reuniram-se para trabalhar e expor em inteira dependência”. O grupo havia de manter animada atividade conjunta ao longo de 4 anos (1968-72) e aquando de uma exposição na Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1969, José Augusto França (n.1922) escreve que estes marcam o fim do decénio de 1960[1]. Com este grupo de artistas, José Rodrigues manterá amizade e cumplicidade, havendo convergência em alguns aspetos das suas biografias, nomeadamente no facto de todos terem sido docentes da Escola de Belas Arte do Porto. Inexplicavelmente, numa fase em que estava já muito debilitado e praticamente cego, após a morte de Ângelo de Sousa em 2011, José Rodrigues desenhou-o e escreveu “Ângelo morreu”, como se o soubesse de cor e como se os seus dedos fossem lápis, extensão matérica do corpo e da alma de artista que o caracterizaram. Aparente desencontro de dois eternos amigos com tantas viagens partilhadas.

José Rodrigues é comummente aceite como um dos protagonistas de um movimento de rutura estética que ter-se-á consubstanciado, publicamente, com a exposição Alternativa 0: Tendências Polémicas da Arte Portuguesa Contemporânea, organizada por Ernesto de Sousa (1921-1988) na Galeria Nacional de Arte Moderna, em Lisboa. Aliás, os anos de 1970 são, em Portugal, de reflexão sobre as práticas artísticas e a escultura é uma das expressões que apresenta ruturas. A de José Rodrigues é exemplo, aproximando-se da dimensão da arte conceptual e com a necessidade de a própria disciplina se questionar, usando os seus próprios meios. Muitos dos seus trabalhos nascem de um confronto entre a assertiva materialidade e a desmaterialização, ou seja, a fragilização da peça ao ponto de esta quase se desfazer no ar. Por um lado têm massa e presença física, por outro os vários materiais parecem torná-la puro desenho no ar, como é exemplo perfeito a obra Navegações (1996) ali no Parque do Castelinho, diante do rio Minho. Há um cinetismo que se contrapõe à própria parte estática e estável da peça e, se a peça está ao ar livre, ondula ao vento. Recordemo-nos, a título de exemplo, das esculturas lineares de varão de ferro com pêndulo ou das de chapas recortadas. José Rodrigues cria, assim, uma relação completamente nova com o espaço e com o observador, encontra-o e convida-o a viajar com ele através da sua Arte. O Cervo (1985), no topo do monte e símbolo de Vila Nova de Cerveira, mais do que imortalizar o Cervo Rei da milenar lenda, imortaliza José Rodrigues, perpetuando o seu legado.

 

« Texto de Helena Mendes Pereira

[1] FRANÇA, José Augusto – História da Arte em Portugal: o Modernismo. Lisboa: Editorial Presença, 2004. Páginas 158-159.

X