Projeto “40 anos, 40 artistas” | 1986: entre Veneza e Vila Nova de Cerveira com Pedro Calapez

Pedro Calapez nasceu a 24 de fevereiro de 1953 em Lisboa, cidade onde vive e trabalha. Começou por estudar Engenharia no Instituto Superior Técnico de Lisboa, ao mesmo tempo que exercia a atividade de fotógrafo profissional. Em 1972, decidiu frequentar os cursos de iniciação artística que a Sociedade Nacional de Belas-Artes disponibilizava livremente. Completa esta formação em 1975 e, a partir de 1976, frequenta a Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. A partir de 1985 dedica-se, exclusivamente, à Pintura. Entre 1986 e 1998 foi professor no Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual), Lisboa, tendo sido responsável pelos departamentos de desenho e de pintura.

Começou a participar em exposições coletivas na década de 1970 e é em 1982 que realiza a sua primeira exposição individual, na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa. O seu trabalho tem sido mostrado em diversas galerias e museu, tanto em Portugal como no estrangeiro, e integra diversas coleções públicas e privadas. Em Portugal, por exemplo, está presente nas coleções do Museu de Serralves, Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão (Fundação Calouste Gulbenkian) ou na coleção da Fundação Bienal de Arte de Cerveira com a obra em acrílico sobre madeira (200x160cm) que destacamos esta semana no âmbito do projeto “40 anos, 40 artistas” e que foi a grande vencedora do Prémio Aquisição Pintura na V BIAC, realizada de 26 de julho a 7 de setembro 1986.

Pedro Calapez afirma-se como pintor logo na 1ª metade da década de 80 em exposições-chave como Depois do Modernismo e Arquipélago. É também neste período que a sua obra se internacionaliza. Em 1986, no mesmo ano em que é premiado na V BIAC, participa na Bienal de Veneza e nos anos de 1987 e 1991 na Bienal de São Paulo, factos que lhe trouxeram reconhecimento público, fomentaram e alargaram a sua rede de comunicação e alavancaram a legitimação e projeção do seu trabalho.

Realizou igualmente cenografias para espetáculos, assim como executou diversas obras públicas, onde se inclui a do Parque das Nações, vem visível a partir do cimo da Torre Galp. No contexto nacional, Calapez surge na chamada década do «regresso à pintura», os anos 80. O seu nome, com os de Pedro Cabrita Reis, José Pedro Croft, Rui Sanches, Rosa Carvalho e Ana Léon, integra uma geração de estudantes da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa específica e muito afirmativa, que nasceu em meados da década de 50 e se uniu numa ação comum de agitação alimentada pelas diferenças individuais.[1]

Nas palavras de Alexandre Melo: “Mantendo-se à margem da voragem situacionista e da expressividade escatológica que marcaram o então chamado “regresso à pintura”, Calapez empreender um percurso pautado pelo rigor metodológico no qual o desenho é a prática fundadora. Produzindo pinturas por incisão, próximas da tradição da gravura, o autor interessa-se sobretudo pelo tratamento pictórico/arquitetónico do espaço. A Arquitetura é uma das referências organizadoras da obra de Calapez, mas esta arquitetura, riscada à superfície do suporte, apresenta caminhos, fachadas, ou pontos de fuga que se contradizem, criando paisagens inverosímeis. Uma arquitetura que remete para a cenografia, ao funcionar como um empilhar de fragmentos cuja aparência teatral insinua um espaço de representação. Calapez engloba na lógica cenográfica não apenas as referências arquitetónicas mas conjuntos de objetos que poderiam servir como adereços ou objetos de cena”.[2] A obra em destaque esta semana tem, precisamente, esta dualidade compositiva da cenografia e da arquitetura, conjeturadas pintura e, sobretudo, cor, luz e sombra,

No seu conjunto, a obra de Calapez revela um constante processo de investigação sobre as possibilidades de abstração na composição do quadro. Nas suas primeiras obras da década de 1980, o desenho revela-se a principal estrutura definidora da composição, com referências à arquitetura enquanto modelo de definição do espaço pictórico. A obra aprofunda, a partir de meados dos anos 90, a materialidade da pintura, assim como a exploração da cor. Entre as diversas metodologias exploradas, incluem-se, mais recentemente, a geração e manipulação de imagens por computador, que permitem diferentes articulações com o espaço, redefinindo-o constantemente em função da perceção do espetador.[3]

São dezenas as exposições individuais e coletivas que fazem parte do currículo de Pedro Calapez, com uma vasta carreira internacional. Por estes dias, encontramo-lo na Galeria Mário Mauroner em Salzburgo, Áustria, onde integra a exposição BLACK MIRROR com 40 artistas internacionais.

 

« Texto de Helena Mendes Pereira

 

[1] http://www.portaldasnacoes.pt/item/pedro-calapez/ em 3 de janeiro de 2015.

[2] MELO, Alexandre – Arte e Artistas em Portugal. Lisboa: Instituto Camões / Bertrand Editora, 2007. Página 178.

[3] http://www.serralves.pt/pt/museu/a-colecao/obras-e-artistas/?l=C em 3 de janeiro de 2015.

X